DOMINGO DO BAPTISMO DO SENHOR – 11/JANEIRO/2015

STO. HILÁRIO DE POITIERS (315-367). Bispo e Doutor da Igreja, esteve exilado na Ásia Menor em virtude do ardor com que combatia a propagação do arianismo. Durante o exílio, escreveu o tratado “De Trinitate” : “Eu Te rogo, Senhor, conserva intacto o fervor da minha fé, e, até ao meu último suspiro, dá à minha voz confor-midade com a minha convicção profunda. Sim, que eu guarde sempre tudo o que tenho afirmado no Símbolo proclamado desde o meu novo nascimento, quando fui baptizado nO Pai, nO Filho e nO Espírito Santo !” (De Trinitate XII, 57).

Isaías 55,1-11 ; Sal Isaías12, 2-6 ; 1 João 5,1-9 ; Marcos 1, 7-11

VENCEDORES DO MUNDO (1Jo.5,1-9). Se a primeira carta de João fala de vitória, é porque há um combate. Esse combate é o do amor. Nestes versículos, o “mundo” entende-se no sentido negativo, como tudo o que se opõe a Deus e ao Seu desígnio de vida sobre cada um e sobre o conjunto da comunidade humana. Cabe pois aos homens abrirem-se aO Espírito que é O “amor derramado nos nossos corações”(Rom.5,5). Este Espírito não se confunde com um dinamismo ou um sentimento, mas implica uma caridade autêntica por Cristo e os membros do Seu Corpo, com os quais Ele forma “Um” único. STO. Agostinho lembra-nos que não se trata de adorar a Cabeça e esmagar os membros desse Corpo dei-xando-os sofrer de fome, de sede, de nudez (física, afectiva ou espiritual). Amar O Pai, amar Cristo, amar os filhos de Deus, é o apelo que recebemos, é esse o caminho da nossa realização. A temática da vitória leva-nos a outros textos que nos confirmam mais firmemente esta realidade da fé! Assim, podemos reler a Carta aos romanos (8,31-39): “Se Deus está por nós, quem pode estar contra nós ? (…) Jesus Cristo que morreu, mas ressuscitou, é quem intercede por nós (…) Mas em tudo isto nós somos os grandes vencedores, graças Àquele que nos amou”. Podemos ainda meditar as Cartas às 7 Igrejas do Apocalipse(Ap.2,1–3,21) que concluem todas a referir uma vitória cheia de promessas. Também aqui a vitória é a de Cristo em nós. Não há pois qualquer presunção na consciência deste dom, que nos convida a viver como responsáveis já que fomos salvos. Seremos nós a quem compete escutar a Palavra e praticar as acções que testemunham a nossa conversão.

BaptismoDeJesusNoEspiritoSantoELE CARREGA O PECADO DO MUNDO (Marcos 1,7-11). S.Marcos é muito breve a descrever o baptismo de Jesus. Os outros evangelistas, em especial S.João, indicam-nos que Jesus passou vários dias em Betânia, para além do Jordão onde João baptizava. Ali, Ele escuta a pregação de João e vê o povo: uns após outros, confessam os pecados e deixam-se mergulhar nas águas do Jordão. É um afogamento que evoca a morte à qual o pecado conduz. Este baptismo de conversão tem em vista a remissão dos pecados dos filhos de Israel, mas para que, ao sairem da água, regressem à Terra prometida e aí vivam na justiça. Jesus contempla-os, como se os visse, uns após outros, depositarem os pecados na água do Jordão, antes d’Ele próprio ser mergu-lhado nessa água para ali recolher o pecado do mundo e fazê-lo morrer no fundo da morada dos mortos alguns meses mais tarde… Com um olhar de compaixão e de misericórdia, Jesus avança para também Se deixar imergir na água em sinal da morte do pecado que assume livremente. Ele não explica nada. O Pai vai justificá-lO. Os céus rasgam-se e O Espírito desce sobre Jesus pois n’Ele já se realiza a comunhão restabelecida do homem pecador com Deus, e O Pai declara : “Tu és O Meu Filho querido; em Ti, encontro a alegria”. Eis portanto a água e O Espírito a darem testemunho. Falta ainda o sangue… Estes gestos simbólicos de Jesus anunciam já a oferenda de Si mesmo. Ele assume-se como a cabeça de um povo de pecadores para os levar, pela Sua Paixão e pela Cruz, à glória da Sua Ressurreição.

“Meditações Bíblicas”, trad. Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye (Supl.Panorama, Ed.Bayard). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.