TERÇA-FEIRA – 30/DEZEMBRO/2014

1 João 2,12-17 ; Sal 95, 7-10 ; Lucas 2, 36-40

PriofetizaAna_TissotANA, VELHA “IGREJA-MULHER” (Luc.2,36-40). Há tão pouco tempo que Jesus Cristo, a Palavra, veio ao mundo – e nele permanece – e como Ele nos faz já falar tanto de Si! Desde a noite do Seu nascimento, quando os pastores já diziam: “Vamos ver o que se passa!” E, eis que a velha Ana, reclusa há muitos lustros na “sacristia” dO Templo, também ouviu falar d’Ele e não fala senão d’Ele, com a volubilidade deliciosa duma mulher, de idade avançada, que a vida não desiludiu, pois continua bondosa e ingénua. Estranha, esta mulher! Antiga como a “Antiga Aliança”, antiga como essa Lei que hoje passa a uma nova era, Ana, gasta como um longo pergaminho, como a sua Escritura doméstica que desenrolaria com os seus dedos trémulos, e que – graças à sua memória sólida – sabia de cor, de tanto a meditar dia e noite. Tornou-se profetiza à força de ler e reler os profetas, e de esperar. Taciturna por estado, esta enamorada, só fala da Palavra e com que entusiasmo! Parece estar ali a prefigurar a Igreja – tão antiga e, ao mesmo tempo, nova -, Igreja que está sempre a insistir na Palavra, a lê-la e a comentá-la. Porque é “na” e “pela” Igreja que O Menino cresce, que a Palavra cresce e Se propaga. A Igreja, meditativa e missionária, tal como Ana, a mulher estéril que louva Deus no Templo, e como Maria, testemunha do crescimento secreto de Jesus em Nazaré: duas figuras da fecundidade. Uma e outra são testemunhas da obra de Deus; uma e outra aceitam o caminho que se abre para elas. Ana, sem filhos, podia ter-se tornado amarga. Maria, sem compreender, podia ter-se revoltado. Mas elas, pelo contrário, escolhem o caminho da docilidade e da contemplação, aceitando assim a salvação que batia à sua porta e às portas do mundo. Seremos nós capazes, como elas, de ultrapassar as nossas desilusões e acolher O Deus que passa no dia-a-dia das nossas vidas?

“Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye (Suplemento Panorama, Edição Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.