III DOMINGO DO ADVENTO – 14/DEZEMBRO/2014

SaoJoaoDaCruzS. JOÃO DA CRUZ (1542-91). Monge carmelita que, com 25 anos e sacerdote recém-ordenado, empreendeu com STA. Teresa d’Ávila, apesar de fortes oposições, a reforma dos Carmelos feminino e masculino. Mais tarde foi preso, pelos antigos carmelitas (ramo masculino) que não queriam a reforma. Passou 9 meses na prisão, tratado com extrema dureza. João costumava pedir a Deus 3 coisas: que não o deixasse passar um só dia sem sofrimento, que não o deixasse morrer ocupando um cargo de superior e que lhe permitisse morrer humilhado e desprezado. Foi bem atendido! Vivia numa ascese tão grande que a saúde se ressentia. Os escritos de João da Cruz (por ex: “O Cântico espiritual, e a “A Noite obscura”) tornam este místico um grande poeta da língua espanhola, com textos que relatam a “união esponsal da alma com Deus”, como o meio mais seguro, escreve ele, para se entrar no caminho pascal de Cristo.

Isaías 61,1-2a. 10-11 ; Lucas 1, 46-50. 53-54 ; 1 Tessalonicenses 5, 16-24 ; João 1, 6-8. 19-28

UMA ALEGRIA PARADOXAL (ls.61,1-2a.10-11). Podem discernir-se duas partes nestes versículos de Isaías. A primeira está centrada na boa nova transmitida pelo enviado de Deus, com as suas promessas de cura, de libertação, de felicidade. A segunda fala da resposta jubilosa da comunidade a este anúncio: “Eu estremeço de alegria nO Senhor…” Trata-se portanto da relação de Deus com o Seu povo, ou seja da Aliança. O contexto do 3º Isaías (capS 56 a 66) refere-se ao tempo, logo após o regresso do exílio, com as fatais decepções.  Israel não se engana na resposta e reconhece que Deus foi verdadeiramente pródigo nos seus benefícios: talvez Ele não lhe tivesse dado a vida que imaginara, resolvendo todos os seus problemas, mas dera-lhe certamente o essencial. O Senhor renovou a Sua Aliança, como sugere a imagem dos esponsais, e deu a Israel razões bastantes para ele lhE responder com justiça, louvando-O e sendo justo com os outros. E nós, que esperamos de Deus? A graça da renovação da nossa relação com Ele e com os nossos semelhantes, ou que Ele actue como um “mágico”, confortando-nos nos nossos desejos de ter ou de parecer? Seremos dos que só exigem para si, ou teremos corações pobres, conscientes das fraquezas e apegos mas também do apelo recebido para partilhar da vida de Deus? Não será esta pobreza a passagem incontornável para se aceder à alegria evocada no texto, e que foi a alegria de Maria, exultante em Deus Seu Salvador. Esta alegria, dom dO Espírito, é uma alegria paradoxal porque não recusa o sofrimento nem nos torna indiferentes aos outros. Aprendamos a vivificá-la, com a contemplação das obras de de Deus, na certeza da fé que “a Sua misericórdia não acaba” nem se “esgota a Sua compaixão” mas que “ela se renova em cada manhã” (Lamentações 3,22-23).

UMA GERMINAÇÃO INTERIOR (João 1,6-8.19-28). Como preparar o Natal com João Baptista? Saborear a alegria do Natal não é fácil. Quando se está em família, vivêmo-la imersos nas alegrias e complexidades da nossa vida familiar, mas, quando se está só, a solidão pode pesar mais do que nos outros momentos. E ainda, no meio da festa do Natal, o curso habitual do mundo pode perturbar-nos. Por isso o anúncio de João Baptista é, de facto, uma Boa Nova extraordinária : “No meio de vós está Aquele que vós não conheceis”. A experiência humana é sempre excitada no interior por Aquele que, nO Natal, vem iluminar as nossas existências e transformá-las. A alegria do Natal não nasce da agitação por vezes pesada que O envolve, mas sobretudo pela experiência de uma “entrada de vida”. O nosso mundo, que arrisca sempre a fechar-se sobre si mesmo, é visitado bem no interior por uma potência de vida que, em cada um, toma corpo na própria carne. Desde a Visitação – encontro de 2 futuras mães – que João Baptista pressente esta efracção divina. É sempre a partir do interior que O Verbo encarnado actua, nunca condicionado por leis exteriores. E é na nossa própria existência, com os nossos limites, que é possível precisamente nesse momento germinarem a justiça e a paz.

“Meditações Bíblicas”, tradução dos Irmãos Dominicanos da Abadia de Saint-Martin de Mondaye (Suplemento Panorama, Edição Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.