23ª SEMANA DO TEMPO COMUM 2014 (Ano A)

O mês de Setembro – e o período do outono em geral – é particularmente rico em festividades. É tempo de evocação do povo de Deus na sua enorme diversidade. A Páscoa de Jesus e a vinda dO Espírito Santo, celebradas na primavera, são o início da grande festa da Igreja que se prolonga durante o verão e o outono até ao dia de Todos os Santos (1/Nov.) quando o céu e a terra se unem num mesmo louvor eterno, onde cada um de nós se torna membro de Cristo à espera da Sua vinda gloriosa no fim dos tempos. Prouvera a Deus que as nossas vidas pudessem ganhar – na participação da Liturgia da Igreja – toda a sua amplitude, para proclamar ao mundo a grande esperança do “amor partilhado”, tal como ele está em “Cristo, O Ungido” de Deus.

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM – 7/SETEMBRO/2014

Ezequiel 33, 7-9 ; Sal 94,1-2. 6-9 ; Romanos 13, 8-10 ; Mateus 18,15-20

ESCUTEMOS A VOZ DO SENHOR !(Sal. 94,1-2.6-9). Este hino celebra Deus pelo que Ele é (“nosso Rochedo”) e o que Ele nos faz (cri-ou-nos, guia-nos). A festa do coração a que o salmista nos convida, baseia-se numa experiência simultâneamente pessoal e colectiva. A quantidade de verbos: vir (ao Templo), gritar, aclamar, dar graças, inclinar-se, prostrar-se, é bem significativa da super- abundância da alegria e do facto que, em matéria de louvor, nada é verdadeiramente adequado à grandeza e ao amor de Deus. Quanto à advertência final, ela recorda um passado doloroso da história do povo (Êxodo 17; Números 20, etc.). O objectivo não é desencorajar, mas antes incitar à escuta, a não ignorar a graça oferecida, a não faltar ao encontro dO Senhor, num apelo a fazer de novo e a viver plenamente a maravilha dessa Aliança que faz dizer ao salmista : “Sim, Ele é o nosso Deus; nós somos o povo que Ele conduz, e o rebanho guiado pela Sua mão”. O dia de hoje é um dia que O senhor nos oferece como uma página em branco para a escrevermos, qualquer que seja o nosso passado : ele é o lugar dum encontro potencial em que Deus aguarda a nossa resposta ao Seu amor. Mas nós sabemos por experiência quanto é difícil encontrar-nos aí, na presença de Deus, de nós mesmos, e dos outros. Renunciar a evadir-nos antecipando o futuro ou refazendo o passado para ser centros de atenção. Atitude que não exclue a cons-ciência que este “hoje” está aberto a promessas: “Quando Deus for tudo em todos”, quando “nós O veremos face a face”. E isto, sem negar a experiência da nossa fragilidade, do nosso coração dividido, da nossa fé facilmente abalada pelas adversidades, como sucedeu a Israel no deserto. Não será desta forma que seremos verdadeiramente livres, a imitar o salmista no louvor e, talvez, a deixar-nos prender por este Deus que faz maravilhas?

O AMOR, FERMENTO DA SOLIDARIEDADE (Ezequiel 33, 7-9; Mateus 18,15-20). A solidariedade não é um vago sentimento de compaixão ou de enternecimento superficial. Ela é a determinação firme e perseverante em trabalhar para o bem comum (Encíclica“Sollicitudo rei socialis”,1987). Ao definir a solidariedade como uma interdependência, João-Paulo ll pôs em evidência a dimensão social do amor recíproco, que faz de todos os crentes vigilantes do amor à paz, em solidariedade com todo o género humano (“Gaudium et spes”, 1). Ele traduzia para hoje a palavra de sempre : a do amor mútuo, do amor que se torna responsável pelo seu irmão. O amor não é pois nem um sentimento vago nem uma casca vazia (“Caritas in veritate”, 3), ele é o meio para discernir nas nossas próprias condutas e nas dos nossos irmãos o pecado que ameaça esmagar-nos. Solidários dos nossos irmãos, nós não somos porém os seus juízes. É na mediação do amor, vigilantes da palavra que salva, agentes de ligação dO Reino de justiça e de paz, que nós escutamos o apelo dO Senhor (“Filho do homem”) para ser co-responsáveis, empenhados na reciprocidade do amor, dispostos também a escutar o irmão que vem, a sós, mostrar-nos as nossas faltas. Na vigília da Natividade da Virgem Maria, é-nos recordado que o amor que salva do pecado, o amor trazido ao mundo por Jesus, é fermento de solidariedade entre os homens. Escutemos o grito de Deus (“Evangelii gaudium”, 211), escreve o papa Francisco. A Igreja chama todos os homens, crentes ou homens de boa vontade, a praticarem esta exigência pessoal e social de um amor que se preocupa humildemente com o outro como um irmão.

JESUS PRESENTE NO MEIO DE NÓS. “Quando dois ou três estiverem reunidos em Meu Nome, Eu estarei no meio deles”. Mistério da presença activa, pacificadora, reconciliadora e amorosa de Jesus no meio dos Seus. Não apenas uma presença “frente” aos Seus discípulos mas bem “no meio” deles. O mistério da comunidade dos cristãos enraíza-se na comunhão íntima com Cristo e na mútua comunhão fraterna. Os discípulos de Jesus esforçam-se por construir a unidade dO Corpo de Cristo recorrendo, se for necessário, à “correcção fraterna”, referida no início do evangelho, associando-se numa oração comum de acção de graças e de petição. Entramos desta forma na comunhão dO Pai e dO Filho. De facto, se O Filho está presente e actua no meio daqueles que oram, como poderá O Pai não atender os pedidos feitos de acordo com a Sua vontade?

“Meditacões Bíblicas”, trad. das Irmãs Dominicanas de Notre-Dame de Beaufort (Supl. Panorama, Ed. Bayard, Paris). Selecção e síntese: Jorge Perloiro.